quinta-feira, 18 de agosto de 2011


Tenho tido esses lapsos já faz um tempo. Essas partes de uma noite que não sei ao certo se vivi ou se sonhei, que vem e voltam como se eu lesse folhas soltas de um livro. Tenho visto esses olhos, olhos que lembram rostos que nunca vi. Tenho encontrado com bocas, bocas que lembram lábios dos quais o gosto nunca senti. Tenho conhecido pessoas, pessoas que lembram sentimentos que nunca entendi.
Tenho visto cachos, pintas, unhas, mãos, braços, coxas, pés, barriga e seios que formam um corpo que nunca conheci, uma cena que nunca vivi. Tenho encontrado com ela em alguns bares, bares que nunca visitei, garota que nunca antes avistei. Tenho sentido falta dela, sendo que nem ao menos sei quem é ela, sendo que nem ao menos sei se eu deveria saber.

sábado, 13 de agosto de 2011


Às vezes, quando os dias recusam-se a terminar antes da hora, tenho a impressão de que posso sentir seu gosto de canela e café dançando sobre meus lábios. Às vezes, quando as manhãs começam antes do tempo, posso sentir seu aroma de biscoitos de gengibre invadir minhas narinas. Às vezes, quando o tempo parece deixar-me para trás, lembro-me vagamente de você, de sua pele fria, de sua boca gelada, de sua nuca úmida, de seus cabelos longos e ruivos voando com o vento vindo da sacada. Às vezes, quando esqueço de você, lembro de mim.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar..."

Mario Quintana

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sentada entre os cobertores e lençóis de sua cama de casal, mantinha seus olhos cinza presos à pálida parede a sua frente. Tinha as mãos cruzadas em frente ao seu rosto, acariciando com os polegares seus lábios úmidos. Vestia sua samba canção preferida, xadrez vermelho e marrom, e sua camisa desbotada do The Cure. Parecia perdida na suavidade da manhã.
Fechou os olhos e bocejou, escorregando lentamente seu corpo para debaixo das cobertas. Virou-se para a direita, sorrindo docemente para a garota ao seu lado. As ondas sutis de seu cabelo castanho espalhavam-se pelo travesseiro azul Royal, e seu rosto claro trajava a suavidade de seus sonhos.  Estendeu seus braços tatuados, aninhando-a.
Certamente poderia passar o resto do dia observando-a dormir, imaginando a profundidade de seu sono, a delicadeza de seus sonhos. Poderia, sem problema algum, passar o resto de sua vida acariciando aqueles cabelos desgrenhados, aquela silhueta magra, aquelas pernas finas, aquele rosto calmo. Mas, já fazia horas que não escutava a rouquidão de sua voz, a forma simples como escolhia as palavras.
-Hora de acordar. – Sussurrou, deixando que o som de seu sorriso fosse abafado pela pele e cabelos da pequena garota. – Já passam das onze horas, Al.
- Hmm. – Alice piscou, soltando-se rapidamente e esticando-se pela cama. – Só mais um pouquinho. –  Umedeceu os lábios, virando-se  e deixando que suas pernas finas enrolassem-se às pernas de Sara, apertando-a com seus magros braços.
- Precisamos levantar, querida.  Comer alguma coisa. Estamos dormindo há... Meu Deus, desde que horas estamos dormindo? – Disse enquanto pulava da cama e procurava suas pantufas pela penumbra do quarto.
- Mas está tão agradável aqui, tão... – Murmurou.
Sara desistiu de encontrar as pantufas, abrindo as cortinas e voltando-se para Alice escondendo o rosto da luz. Puxou os cobertores com rapidez ao mesmo tempo em que encurralava a garota contra os lençóis.
- Nem pense em esconder seu rosto de mim ou desse dia ensolarado. Nem pense nisso, ouviu? – Sorriu torto, roubando um beijo com hálito de manhã. – Vamos, levante. – Segurou as mãos pequenas e macias de Al, puxando-a em sua direção. Beijou-lhe as maças rosados do rosto, e a puxou até o banheiro.
Sentou-a sobre a bancada, colocando pasta de dente em sua escova rosa.
 - Tome, eu vou até a cozinha preparar nosso café. – Beijou-lhe as bochechas. – Ah, vista um casaco, está ficando frio.
- Está bem. – Sussurrou enquanto Sara deixava o cômodo. – Está ótimo. – Tocou lentamente os pés no ladrilho gélido, ficando apenas na ponta dos pés. Virou-se para o espelho, ajeitando os cabelos e escovando os dentes com pressa. Cuspiu. –Ah querida, está tudo tão perfeito. – Sussurrou olhando vagamente para seu reflexo sujo de espuma, olhando com aqueles olhos de quem enxerga além. – Tão irreal. Que eu não acorde, por favor! Que nada disso tenha fim. 

(Por favor, alguém me diga como voltar a escrever bem.)

sábado, 25 de junho de 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

Seu pescoço estava ao alcance de meus lábios mornos. Sua boca aveludada abria e fechava com sua respiração irregular, deixando escapar seu hálito tépido, seu gosto de amora e manhã. Seria tão fácil alcançá-la com meu rosto, marcar o seu corpo, dançar meus dedos sobre sua pele fria.
Mas minha face, minhas mãos, minhas pernas e meu tronco cessaram movimento assim que seus olhos voltaram-se para mim. Sorria enquanto meu coração disparava sua melodia mais sombria. Levantou. Sorriu outra vez. Meus dedos imploravam por movimento, por um toque, pelo passear sobre a pele macia, sobre as curvas suaves, sobre ela. Caminhou até a porta.
Pudera tê-la prendido em meus braços, ter implorado que ficasse, ter feito do quase - tudo, tudo.

sábado, 14 de maio de 2011

Em frente ao espelho de sua penteadeira, observava os traços imperfeitos de seu rosto, desviando os olhos de seu reflexo apenas para observar o pedaço de foto amassado em suas mãos. Prometera a si mesma esperar por ela o tempo que fosse preciso. Prometera guardar a foto dela no fundo falso da gaveta e nunca deixar que alguém a encontrasse. Prometera o amor em segredo.
Mas agora, depois de tantos anos, como poderia esconder algo tão importante? Como poderia manter todas essas borboletas dentro de si sem deixar que nenhuma delas escape, procure outros corpos, espalhe seu segredo?
Olhando para seu próprio rosto não podia deixar de se perguntar se havia alguém para amá-la, para guardá-la no fundo falso da gaveta, para pedi-la em casamento um milhão de vezes em seus sonhos. Havia alguém que alimentasse borboletas por ela? Haveria alguém que nas madrugadas frias de sábado apertasse as mãos para não pegar o telefone, para não discar seu número, para não contar o quanto se importa? Haveria alguém que se importasse? Haveria alguém que a amasse como ela ama?
Apertou outra vez a foto contra o peito, deixando que lágrimas vertessem de seus olhos castanhos, deixando que o retrato amassado preenchesse uma parte de seus vazios. E seria isso tudo realmente amor?